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Greve na Marechal Expõe uma Ferida Antiga: Brasília Ainda Não Resolveu Seu Problema de Transporte Público

Paralisação desta segunda deixou 175 mil passageiros sem ônibus e jogou luz sobre uma crise que vai além de um atraso na folha de pagamento.

Foi uma segunda-feira de caos nas paradas de ônibus de Ceilândia, Taguatinga, Águas Claras e Guará. Os rodoviários da empresa Marechal entraram em greve na manhã desta segunda-feira (22/6), afetando a circulação de ônibus e o transporte público no Distrito Federal. A greve foi encerrada no mesmo dia, após cinco horas de paralisação, e os ônibus voltaram a circular. A decisão pelo encerramento foi tomada durante uma assembleia realizada na garagem da empresa, no P Sul, em Ceilândia, após a confirmação do pagamento dos salários. Metrópoles

O motivo imediato foi simples: os trabalhadores não haviam recebido os salários no prazo. Mas o que parece um episódio pontual esconde um padrão que se repete com frequência incômoda no sistema de transporte público do Distrito Federal. Quando a paralisação acontece, são sempre os passageiros que pagam a conta, seja com horas perdidas, sejam com tarifas de aplicativo que pesam no bolso.

A dúvida que fica após cada paralisação dessas é sempre a mesma: quando o DF vai, de fato, resolver a fragilidade estrutural do seu transporte coletivo?

O Que Causou a Paralisação desta Segunda

O movimento teve início às 4h e impactou a circulação em seis regiões do Distrito Federal, atingindo aproximadamente 175 mil passageiros diariamente. O encerramento ocorreu por volta das 9h, após assembleia realizada na garagem da empresa em Ceilândia. Em menos de uma manhã, o estrago já estava feito: trabalhadores sem como chegar ao serviço, estudantes sem transporte para as aulas e usuários que dependem dos ônibus para consultas de saúde sem alternativa imediata. Diário do Transporte

A empresa Marechal informou que a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob-DF) realizou o repasse dos recursos na última sexta-feira (19/6), mas os valores foram creditados na conta da concessionária apenas no sábado (20/6), impossibilitando o processamento da folha no mesmo dia. Segundo a Marechal, após a conclusão do processamento, os valores foram depositados nas contas dos funcionários às 6h30 desta segunda-feira. Correio Braziliense

A versão da empresa tem uma lógica técnica que ela mesma admite como justificativa para o atraso. Mas o presidente do Sindicato dos Rodoviários do DF, João de Oliveira, foi claro ao Metrópoles: a categoria não previa uma paralisação, pois acreditava que os salários seriam pagos até sábado. “Nós fizemos o máximo possível para evitar esse momento. Só que a empresa não conseguiu. A única empresa foi a Marechal. As outras arrumaram um meio de fazer o pagamento com adiantamento salarial dos trabalhadores”, afirmou. Metrópoles

Uma Frota que Move a Cidade e um Sistema que Trava

A Auto Viação Marechal opera no DF desde 2013 e atualmente possui 509 veículos. A empresa é responsável pelo transporte de cerca de 175 mil passageiros por dia e atende populações da Bacia 4, que reúne as regiões administrativas de Águas Claras, Ceilândia, Guará I e II, parte do Park Way e Taguatinga. Não se trata de uma operadora pequena. São regiões densamente populosas, onde a maioria dos moradores depende quase exclusivamente do transporte público para se deslocar. SBT News

O problema que esta greve expõe vai além da Marechal. A greve ocorre em um momento de preocupação para o sistema de transporte público da região, que já havia registrado interrupções recentes em linhas de grande demanda. Na semana passada, os passageiros também foram afetados pela paralisação dos rodoviários da empresa Amazônia Inter, responsável por linhas interestaduais que ligam Planaltina de Goiás a Brasília, Planaltina, Sobradinho e Formosa. Em menos de dez dias, duas paralisações diferentes atingiram quem depende do transporte público na capital federal. Jornal de Brasília

Segundo profissionais do setor, a empresa não teria pago valores referentes a 2025 e 2026. Caso os débitos não sejam quitados, o serviço pode paralisar novamente. Esse ciclo de inadimplência seguida de paralisação seguida de normalização precária é, há anos, o ritmo do transporte público brasiliense. Metrópoles

Passageiros no Meio do Fogo Cruzado

Para quem usa os ônibus todos os dias, pouco importa quem tem razão na disputa entre a empresa e o governo. O que interessa é que quando a greve começa, a única saída é improvisar. Com a frota retida nos terminais, os usuários precisaram improvisar rotas, recorrer ao metrô superlotado ou arcar com custos altos de transporte por aplicativo para não perderem o dia de serviço. Metrópoles

O metrô, que não está envolvido nas greves rodoviárias, absorveu parte da demanda extra, mas sua cobertura é limitada às áreas próximas às estações. Quem mora em regiões que não têm acesso fácil ao metrô ficou sem opção real e barata. A malha do Metrô-DF, apesar das melhorias dos últimos anos, ainda não cobre boa parte das regiões administrativas mais populosas do DF.

O episódio desta segunda-feira não é uma exceção no calendário do transporte público brasiliense. É, infelizmente, parte de uma rotina que a cidade aceita com resignação e que continua aguardando uma solução estrutural que vai muito além de resolver um atraso de folha de pagamento.

Fontes: Metrópoles | Correio Braziliense | Diário do Transporte

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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